Com licença poética

Quando nasci um anjo esbelto,
desses que tocam trombeta, anunciou:
vai carregar bandeira.
Cargo muito pesado pra mulher,
esta espécie ainda envergonhada.
Aceito os subterfúgios que me cabem,
sem precisar mentir.
Não sou feia que não possa casar,
acho o Rio de Janeiro uma beleza e
ora sim, ora não, creio em parto sem dor.
Mas o que sinto escrevo.
Cumpro a sina.
Inauguro linhagens, fundo reinos
— dor não é amargura.
Minha tristeza não tem pedigree,
já a minha vontade de alegria,
sua raiz vai ao meu mil avô.
Vai ser coxo na vida é maldição pra homem.
Mulher é desdobrável. Eu sou.


Adélia Prado

3 comentários:

  1. Gostei de encontrar e reler aqui a Adélia Prado.

    Beijinho, Hanah.

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  2. yinyang10:08 AM

    Simplesmente fantastico!
    Adélia Prado, não conheço o seu trabalho como escritora mas só de ler este magnifíco poema abriu-me o apetite de a conhecer....

    bjs

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  3. Olá, minha linda gosto de te ouvir
    muito e sempre

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