primavera não nos deixe
pássaros choram
lágrimas no olho do peixe
8
Matsuó Bashô
(tradução de Paulo Leminski)




OUTONO

Talvez nunca a ternura fosse tanta
como entre os montes amadurecidos
e quando as casas se elevam
entre o ouro e o fumo da tarde.

Silêncio que parece vir do lento
passado,
vozes que se dão
em resignada melancolia
e tomam a forma dos frutos,
vinho e sombra que apagam o mar
nas árvores
onde não tardará o abandono
memória do que somos.

Repousam sobre a noite os grous
enquanto as cidades crescem à nossa volta
contra o sul vencido.

Vento, ramo e sombra que caem
sobre as janelas ardentes:
lá onde a púrpura se reclina
sobre a água e a beleza
a verdade começa a surgir da espuma.

Henrique Dória


Blog
Odisseus





Um Minuto No Todo


Se eu conseguisse manter
a força do pensamento
sem divagar, concentrado,
em todo e qualquer momento
por certo desvendaria
o mistério de todo o ser

Teria a chave do reino
O contato com os elementais
A beleza da natureza
Tudo isso e muito mais

Não haveria nada no mundo
que eu não pudesse entender
Conversaria com os pássaros,
plantas, flores,
os animais no campo,
com a formiga apressada
que passa em seus labores

Ficaria embevecido ao ver
como tudo funciona
simples, claro, normal
Mas o pensamento foge
e eu volto ao irreal.



Antonio Camilo
PARA OS DEUSES
Para os deuses
as coisas são mais coisas.
Não mais longe eles vêem,
mas mais claro
Na certa
Natureza
E a contornada vida...
Não no vago que mal vêem
Orla misteriosamente os seres,
Mas nos detalhes claros
Estão seus olhos.
A Natureza é só uma superfície.
Na sua superfície ela é profunda
E tudo contém muito
Se os olhos bem olharem.
Aprende, pois, tu,
das cristãs angústias,
Ó traidor à multíplice presença
Dos deuses, a não teres
Véus nos olhos nem na alma.
Fernando Pessoa

Estrelada

És menina do astro sol,
És rainha do mundo mar
Teu luzeiro me faz cantar Terra,
Terra és tão estrelada
O teu manto azul comanda
Respirar toda criação

E depois que a chuva molha
Arco-íris vem coroar

A floresta é teu vestido
E as nuvens, o teu colar

És tão linda,
ó minha Terra Consagrada

em teu girar Navegante das solidões

No espaço a nos levar
Nave mãe e o nosso lar Terra,

Terra és tão delicada
Os teus homens não tem juízo
Esqueceram tão grande amor

Ofereces os teus tesouros
Mas ninguém dá o teu valor Terra,

Terra eu sou teu filho
Como as plantas e os animais
Só ao teu chão eu me entrego
Com amor, firmo tua paz.
Milton Nascimento / Marcio Borges


Al Otro Lado del Río


Clavo mi remo en el agua
Llevo tu remo en el mío
Creo que he visto una luz al otro lado del río

El día le irá pudiendo poco a poco al frío
Creo que he visto una luz al otro lado del río

Sobre todo creo que no todo está perdido
Tanta lágrima, tanta lágrima y yo, soy un vaso vacío

Oigo una voz que me llama casi un suspiro
Rema, rema, rema-a Rema, rema, rema-a

En esta orilla del mundo lo que no es presa es baldío
Creo que he visto una luz al otro lado del río

Yo muy serio voy remando muy adentro sonrío
Creo que he visto una luz al otro lado del río
Sobre todo creo que no todo está perdido
Tanta lágrima, tanta lágrima y yo, soy un vaso vacío
Oigo una voz que me llama casi un suspiro
Rema, rema, rema-a Rema, rema, rema-a
Clavo mi remo en el agua
Llevo tu remo en el mío
Creo que he visto una luz al otro lado del río
*
foto Pedro Martinelli
canta Jorge Drexler


"Somos a metade de um continente que se rompeu há muito tempo.

Vim cruzando os oceanos lentamente movido a correnteza e vento.

Agora que vamos nos unindo, sinto o ajuste de nossos litoraes
e estremeço onde eu findo ai é o seu início"



Latner







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Estrelas do Mar

Era uma vez um escritor que morava em uma tranquila praia,
junto de uma colônia de pescadores.
Todas as manhãs ele caminhava à beira do mar para se inspirar,
e à tarde ficava em casa escrevendo.
Certo dia, caminhando na praia, ele viu um vulto que parecia dançar.
Ao chegar perto,
ele reparou que se tratava de um jovem que recolhia estrelas-do-mar da areia para,
uma por uma, jogá-las novamente de volta ao oceano.
"Por que esta fazendo isso?--perguntou o escritor.
"Você não vê!--explicou o jovem--A maré esta baixa e o sol esta brilhando.
Elas irão secar e morrer se ficarem aqui na areia".
O escritor espantou-se.
"Meu jovem, existem milhares de quilometros de praias por este mundo afora,
e centenas de milhares de estrelas-do-mar espalhadas pela praia.
Que diferença faz? Você joga umas poucas de volta ao oceano.
A maioria vai perecer de qualquer forma".
O jovem pegou mais uma estrela na praia,
jogou de volta ao oceano e olhou para o escritor.
"Para essa eu fiz a diferença".
Naquela noite o escritor não conseguiu dormir,
nem sequer conseguiu escrever
Pela manhã,voltou à praia,
uniu-se ao jovem e juntos começaram a jogar
estrelas-do-mar de volta ao oceano.
Sejamos,
portanto,
mais um dos que querem fazer do mundo um lugar melhor.
Sejamos a diferença!

Loren Eiseley

Ondeia - Dulce Pontes

Homenagem aos Leitores ~ Amigos ~ Blogueiros do Planeta Terra




Morte

O corpo é cinza e pó,
crispado, alguma vez, de
sonhos e penas,
ausencias e amores,
sombras e dúvidas,
expiações as estrelas.
O corpo expira e a alma livre vôa.
Casca jaze alí inerte,
o que um dia estremecia ao som da vida.
Velha casa derruida, que cobre o que alí passou.
Mãos sem vida, pernas tombadas.
Quem diria que alguma vez, como borboleta brincavas.
oh !! larga-me morte fria !!..
ontem
não temia,
hoje nu,
perante ti,
ficaria.
.
poesia gentilmente cedida pelo amigo Luis Enrique do Blog "Além do Sol"
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Fala

Falo de agrestes
pássaros de sóis
que não se apagam
de inamovíveis
pedras
de sangue
vivo de estrelas
que não cessam.
Falo do que impede
o sono.


Orides Fontela

Dizem que o que todos procuramos é um sentido para a vida.
Não penso que seja assim. Penso que o que estamos procurando é uma experiência de estar vivos, de modo que nossas experiências de vida, no plano puramente físico, tenham ressonância no interior do nosso ser e da nossa realidade mais íntimos, de modo que realmente sintamos o enlevo de estar vivos.
J. Campbell

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agradecimentos ao João Bioterra